A Ética da Filosofia Kemética em Maat, e Intercessão da Cosmologia indígena de Xapiri na Aldeia Maracanã.

Aldeia Maracanã: Em plena selva de pedra vertical, em terreno valioso, um antigo museu do índio, em ruínas espera para ser demolido ou reconstruído pelas autoridades competentes. “ O prédio onde funcionava o Museu do Índio foi construído pelo  Duque de Saxe  em 1862 e doado em 1910  ao  Serviço de Proteção aos Índios , órgão estatal comandado pelo  Marechal Rondon , quando de sua criação, em 1910. O objetivo é que o espaço fosse uma área de preservação da cultura indígena brasileira. Inicialmente, o prédio abrigou a sede do órgão federal, e posteriormente, entre 1953 e 1977, abrigou o Museu do Índio, criado por  Darcy Ribeiro . Após essa data, o museu foi transferido para  Botafogo  e o prédio ficou abandonado”. E a partir de 2006, várias lideranças indígenas ocuparam o imóvel abandonado com o objetivo da criação de Um Centro de Referência dos Povos Originários. Com a prisão do Ex. governadores “CABRAL e PEZÃO”. Podemos concluir que algumas conquistas foram alcançadas: dentre elas: A criação do CEDIND (Conselho Estadual dos Direitos Indígenas) órgão paritário governo e sociedade civil; a sua não demolição para criação de uma garagem para atender um Shopping Center e a possibilidade da Criação de Um Centro de Referência/Universidade Indígena. Este último dependendo de uma articulação com o novo governo eleito Wilson Witzel. Mas, que fatos novos aconteceram recente, que pode vir em contraposição a demanda dos povos originários? Recente, fomos surpreendidos com a declaração do Deputado Estadual eleito, Rodrigo Amorim (PSL), que afirmou à imprensa, que o antigo museu do índio: “que o terreno de 14,3 mil metros quadrados é um “lixo urbano” e que é necessária uma “faxina” no local para “restaurar a ordem”.

Finalizando, o mesmo acrescenta: “O espaço poderia servir como estacionamento, shopping, área de lazer ou equipamento acessório do próprio estádio do Maracanã. Como carioca me causa indignação ver aquilo do jeito que está hoje”. E finaliza dizendo em um jargão preconceituoso: “Quem gosta de índio, que vá para a Bolívia, que, além de ser comunista, ainda é presidida por um índio”. E conclui: “Tem muitos mendigos, cracudos, ali ninguém é índio”. A matéria dada ao Jornal o Globo, foi confirmada pela jornalista Beatriz Peres, do Jornal O DIA e em declaração em vídeo. “Eu e meu amigo deputado... vamos acabar com os focos de doenças e valorizar o lugar com a criação de um Shopping Center” ...Vamos expulsar os militantes de esquerda e enviá-los para Bolívia, pois, lá é que estão os comunistas”, disse.  O presidente da Bolívia, Evo Morales ficou transtornado com a ironia do representante parlamentar e prometeu denunciá-lo na ONU (Organização da Nações Unidas), por racismo de estado. Segundo Morales: “Lamentamos o ressurgimento da ideologia de supremacia racista. Nós povos indígenas promovemos o respeito e a integração. Temos os “mesmos direitos porque somos filhos da mesma Mãe Terra”. A ministra Boliviana das Comunicações, Gisela López, também se manifestou no Twitter, questionando a colocação racista do deputado, quando mencionou: "despreza com ignorância nossos antepassados, os verdadeiros donos da Pátria Grande, com palavras que demonstram cegueira e pobreza espiritual".  O nome Marakana em yanomami, é Casa Grande, onde Kopenawa costumava receber o Xapiri deitado em uma rede.

A professora de Filosofia do IFCS, Katiuscia Ribeiro vai dizer: “A cosmologia africana e a indígena estão muito próximas. E o recado hoje, é que a luta contra o racismo, o direito a viver com dignidade, com respeito a diversidade, são característica do povo negro e povos ameríndios”. Se o continente africano e americano foi e é predominantemente indígena, por que a discriminação a sua espiritualidade? O segmento evangélico pentecostal vai dizer: “é coisa do demônio”. E ai vale tudo para silenciar, difamar, expulsar, assassinar, o povo negro e/ou os povos da floresta, por uma questão de dominação e aculturamento ?

Buscando encontrar uma resposta em Xapiri, o encantado da floresta, me perguntei? Esse jogo... Este agito... Necessita de equilíbrio: pois, estamos pensando com o racional, o lógico, de punir, espernear, mandar, fazer e obedecer, matar... Bem ao estilo ocidental, ao rigor da Lei. Diria Katiuscia Ribeiro, que essa posição dos brancos nós conhecemos: “é a visão eurocêntrica de mundo” e nos discordamos com veemência, pois, “o ocidente não é o centro do mundo, pois a África é a civilização mais antiga, e o ocidente copiou, modificou, transformou, o legado egípcio, que era africano”.

Mas, se a articulação com a espiritualidade em Maat e Xapiri está oculta, e só pode ser sentida pelos indígenas e negros africanos pela similaridade. Como então classificar filosoficamente a filosofia intercultural de comunicação? Buscando a resposta em Molefi Kete Asante, no artigo: Apoio a identidade, cultura e história sem dominação Global, o mesmo vai dizer: “A maioria dos comunicadores aceita a ideia de que os humanos compartilham a mesmice. Uma das idéais operacionais da comunicação intercultural é que devemos tratar os outros como se fosse os mesmos que nós”. Penso então: os povos ameríndios devem ter o mesmo estilo de vida do branco, as mesmas crenças? Com relação a essa indagação, Asante vai dizer: “Mas eu sou negro”, O fato de a pessoa branca procurar estabelecer a mesmice é louvável apenas em uma cultura de superioridade onde a pessoa que faz a declaração é realmente dizendo: “Você parece ter os mesmos estilo culturais, comportamentos, valores e roupas que eu tenho”. Em outras palavras, Asante diz que a comunicação nunca é pelo respeito a diferença, pela alteridade, “mas expressamente pela busca da uniformidade com base para uma ideia universalizada de comunicação”. É conclui rejeitando o argumento lógico e racional: “É isso que rejeito a favor das diferenças culturais. (Talvez este espaço de Maat trabalha melhor, nas trincheiras comunicativas onde nos encontramos como novidades para serem apreciadas, respeitadas e vistas como exclusivamente humanas sem ter que se tornar o mesmo.” Mas onde encontrar Maat, na nossa cosmovisão a partir dos cinco elementos principais da cosmologia egípcia?

Bom, na qualidade de Conselheiro e representante dos povos da floresta no contexto urbano, e diante da narrativa africana penso? O povo africano no antigo Egito pensava com o IB, (o coração), pois, foi com uma gota de sangue no útero materno que nasci; Devo valorizar (o Ren), meu nome para viver para sempre; perceber o Sheuti (a sombra), que me acompanha todos os dias; O Ka, a vida na passagem para a morte, (o elo vital) que mantenho segredo para alcançar a vida... E o Ba, abrindo caminho para além da morte... O que leva o humano acender à outro plano astral, a querer um passagem para outra atmosfera? Contam que Maat, pesa o nosso coração com uma pena de pavão. E o nosso corpo não pode pesar mas que uma pena de pavão, pois, se isso acontecer estamos impuros, sem condições de acessar o mundo espiritual. Daí é necessário toda uma preparação, sentir, o que o corpo que pedir. Na verdade, Asante vai dizer que Maat, não é uma questão normativa, esquemática, e por isso o homem branco, ocidental tem dificuldade de entender.

Mas qual paralelo posso fazer hoje com Aldeia Maracanã, partindo de uma narrativa de reportagem do “Jornal Brasil de Fato? Na entrevista com o Cacique José Urutau, liderança indígena que segue em ocupação e resistência sobre a “comunicação intercultural”. Diz Wurutal. “Vieram mexer com a nossa espiritualidade, esse local é um patrimônio espiritual para a gente. Aqui viviam os povos Maracanã e Tupinambá; Aqui era um grande aldeamento. Nós não viemos até o Maracanã, a cidade que veio até nós. A cidade é um grande cemitério indígena que nos engoliu. Nós aqui não temos estrutura nenhuma, mas seguimos lutando”, explica. Buscando sintonia com a ancestralidade com Maat e Xapiri, eu diria com palavras de um xama? “Visitei o lugar que frequentei no passado. Aqui na Aldeia Marakana tinha uma “Casa Grande,” muitas crianças que moravam nessa comuna. Mas como recordar que os ancestrais estão na Aldeia Maracanã?  Não posso afirmar com o lógico, o legal, o racional do branco, pois:  habitam nos escombros das ruínas do Antigo Museu do Índio, os espíritos da floresta e eles vem em forma de pássaro. E esse pássaro tem um significado para os estudiosos da filosofia egípcia, (cara de humano e corpo de avestruz). Na cultura yanomami, os encantados vem do alto em forma de pássaro (com cara de animal e corpo de humano). “Ambos vem do céu, em forma de gavião (koimari), e sempre nos olha de cima baixo”, diz Kompenawa. Nessa guerra fratricida do bem contra o mal, de Anúbis e Xapiri contra os mortais devemos ficar atentos, “pois os Xapiris, são muitos, e quando estão enfurecidos: “logo se põem a aumentá-las a golpe de facão, para poder entrar em maior número de Xapiri.”

E continua: E essas habitações tem um único nome de espírito, mas os que nela vivem, todos semelhantes, são inúmeros. Existem Xapiri bons e maus”. Será que os que rondam dentro e fora da Aldeia Maracanã, são espíritos maus? Com relação aos espíritos diz Kopenawa: “Numa casa de espíritos, as habitações dos espíritos maléficos ficam pendurados ao ponto mais alto do teto, para além faz costas do céu, ao passo que as de espíritos bons estão situados na parte de baixo da casa. Os Xapiri famintos de carne humana devem ser mantidos á distancia, pois são muito perigosos e ferozes... Esses Xapiri agressivos são as imagens de seres maléficos, que fazemos descer para nos vingar. Além de suas armas assustadoras, possuem várias coisas de doenças. O espírito do céu Hutukarari, por exemplo: enfia na imagem das suas vítimas, lascas brilhantes de estrela, de que ninguém pode ficar curado.”

Diante do quadro apresentado cabe indagarmos? Será que as pessoas de bem, ‘espíritos bons', conseguem contrapor ao homem da mercadoria em plena megalópole? Diante da “selva de pedra” e “sem floresta”, os homens da mercadoria, estão preocupados com os índios, e ocupantes da Aldeia Maracanã? Essa resposta tem uma grande amplitude, mas pessoalmente acredito que não.

Então vejamos o que diz o Amorim, em um vídeo nas redes sociais: “ai não tem índio, tem lixo em uma área nobre. O Centro de Referência dos Povos Tradicionais, não podem estar em um lugar tão valorizado.”

Mas se estamos tratando de seres ocultos se manifestando, o que diria Davi Kopenawa? “Os Homens Brancos... precisam vir falar comigo. Sou representante do meu povo, da Nação yanomami... O que eu falo como Xamã, falo por que o XAPIRI me mandou dar um recado ao branco, pois o Céu caíra sobre suas cabeças.” Continua: O homem branco só acredita no que está escrito na cascara da arvore”, diz. Em uma folha de papel”.

Considerações finais: A aldeia Maracanã (é tema central) dentro do “espaço urbano” muito valorizado na cidade, em ano que se comemora 519 anos de “colonização portuguesa". Será que chegou a hora do povo “Carioca” se manifestar, em uma espécie de ressurgência, em um grito de guerra, oculto, que está no imaginário popular?

A cidade do Rio de Janeiro foi fundada em 1565 por Estácio de Sá, que deu o nome de Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. As antigas habitações deram lugar a edifícios, transito congestionado, poluição do ar, poluição visual, e ainda se depara com a falta de ordenamento urbano que é de competência do agente público.

A temática “Aldeia Marakana, Casa Grande”, acredito: deve ser pauta para discussão do CEDIND (Conselho Estadual dos Direitos Indígenas). Entendo que as assembleias devem ser aberta a sociedade civil organizada... (aldeados e não aldeados), legislativo e executivo. Pois a problemática não se resolve com medidas de força, polícia e autoritarismo. O Estado do Rio de Janeiro todos sabem: está passando por uma crise nas suas “finanças”, insolvência e uso irregular do dinheiro público. E só vamos conseguir avançar em uma agenda de resultados, com dialogo.  Já é um avanço ter esse conselho que conta com um RI (regimento interno), com diversas comissões em formação: educação, saúde, meio ambiente, comunicação, territórios e outros... Interiorizando o Xamã eu diria:

Na verdade estamos em pleno aprendizado das artimanhas de XAPIRI, que dita o jogo. Então, vejamos em a Queda do Céu de Davi Kopenawa, matando a charada: “Quando eu era criança, os brancos subiram os rios e começaram a fazer morrer nossos antigos em grande número. Depois voltaram de avião e helicóptero. Então suas fumaças de epidemia, mais uma vez, fizeram morrer muito de nos. Agora, eles tinham resolvido abrir suas estradas até o meio da nossa floresta, e suas doenças iria com certeza devorar os que tinham subdividido...  Dizia a mim mesmo: os brancos rasgam a terra da floresta,” e continua: Derrubaram as arvores e explodem colinas. Afugentam a caça. Será que agora vamos morrer das fumaças da epidemia de suas maquinas e bombas”, disse. Creio que pensar em uma solução eficaz, passa pelo dialogo: poder público, ocupantes, movimentos sociais, aldeados e indígenas no contexto urbano e a imprensa. O canal de interlocução foi criado com a criação do CEDIND. Basta agendar, buscar parcerias público e privado, gerar conhecimento com universidade, além de escolher uma instituição que pode ser privada para gerir o espaço. Afinal: temos mascara branca, cara de branco em corpos negros. Rio, 13 de janeiro, 2019 DC

REINALDO DE JESUS CUNHA – Conselheiro - AULA
Jornalista: 0036785/RJ

CEDIND- Conselho Estadual dos Direitos Indígenas do Estado do RJ

 

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