Escolas terão programa de proteção
contra bala perdida
Secretaria Municipal de Educação
vai ensinar professores e alunos de áreas
violentas a se proteger durante os tiroteios na
vizinhança
POR CHRISTINA NASCIMENTO, RIO DE
JANEIRO
Rio
- A realidade de violência que bate à
porta de 150 escolas municipais — estrategicamente
mapeadas como de áreas de risco —
levou a Secretaria Municipal de Educação
a estudar um plano de emergência para treinar
professores, funcionários de apoio e alunos
a enfrentar situações de alta tensão,
como tiroteios entre bandidos e policiais. O curso
deve ensinar como deixar as salas de aula da maneira
mais segura e se abrigar em locais em que o grupo
possa aguardar o cessar-fogo.
A
medida evitaria episódios como o da semana
passada, em que funcionários de um colégio
da prefeitura, no Complexo da Penha, sem saber
como agir, se aglomeraram numa escada enquanto
balas de fuzil perfuravam paredes e caíam
no chão dos corredores e pátio.
“Essa é nossa realidade. Temos que
fazer frente a isso e treinar nossos professores
e crianças para aprenderem a atuar numa
situação de emergência”,
explicou a secretária municipal de Educação,
Claudia Costin.
A
previsão, segundo ela, é que o treinamento
seja aplicado no ano que vem. O grupo deve aprender
também a enfrentar enchentes, incêndios
e outros de desastres. Costin lembrou o episódio,
em setembro, em que 1.300 alunos da Escola Municipal
Rio das Pedras, em Jacarepaguá, foram retirados
com segurança da unidade após ouvirem
estalos na estrutura. “Foi uma saída
exemplar. As crianças deixaram a escola
enfileirados, sem pânico. Penso até
em levar os professores que participaram dessa
remoção a outros colégios
para contar a experiência e trocar ideias”.
POLÊMICA
Apesar
de ainda não ter saído do papel,
o plano de emergência já começa
a causar polêmica. Alguns professores acreditam
que a medida é paliativa e que o ideal
seria que as operações policiais
não fossem realizadas no meio do dia, quando
os alunos já estão dentro das salas
de aula. “Sabemos como esvaziar o prédio
num momento de desespero. Mas a situação
é muito mais complicada. Não é
justo ficar refém de um tiroteio dentro
da escola.
Nenhum
dinheiro paga isso. Tem que haver um serviço
de inteligência para que essas operações
aconteçam fora do horário escolar.
Como vamos atingir metas e ganhar nosso 14º
salário com uma realidade dessa?”,
questionou a professora Regiane, 46 anos, que
leciona no Complexo do Alemão.
Professora
há seis anos na Escola Municipal Noel Rosa,
perto do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, Edna
Félix sabe o que e é trabalhar sob
tensão constante. Ela não crê
que um treinamento específico possa ajudar
a aumentar a segurança nas escolas. “O
ideal seria termos mais condições
materiais. Pedimos, por exemplo, a blindagem da
nossa escola. São muitas vidraças
voltadas para a comunidade e já tivemos
janela quebrada por tiro”, lembra a professora.
Rota
de fuga para rua com transporte
Analisar
a situação de cada escola e traçar
as melhores saídas para um plano de proteção
aos professores e alunos, que deve ter, inclusive,
rota de fuga que dê acesso a uma rua com
oferta de transporte público. O coordenador
do Grupo de Análise de Risco da Coppe (UFRJ),
Moacyr Duarte, vê prós e contras
na medida que a prefeitura estuda adotar. Para
ele, uma das primeiras iniciativas é levantar
na área dos colégios quais os lugares
menos atingidos por tiros.
Caso
esse ponto não exista, a unidade deve construir
um abrigo adequado. “Este lugar não
pode ficar estigmatizado na escola como o local
ao qual se corre no momento do tiro. Ele tem que
ser adaptado aos outros cômodos, para não
criar uma situação de desconforto.
A cidade se prepara para receber a Copa do Mundo
e a Olimpíada. É uma boa oportunidade
de levar esse plano, não somente para os
colégios, mas para o público de
uma maneira geral”, ensina Moacyr.
Encurralados
na escada para se abrigar de tiros
Desespero,
medo e um Pai-Nosso para tentar aliviar a tensão.
Vídeo enviado a O DIA mostra professores
encurralados nos degraus de uma escada, durante
tiroteio, semana passada, no Complexo da Penha.
As imagens exibem quase duas de horas de confronto,
intercaladas com o som do choro de alguns profissionais,
que, sem saber o que fazer, se espremiam uns sobre
os outros para não serem atingidos por
balas de fuzil.
O
estado tem plano diferente para áreas conflagradas.
A Secretaria Estadual de Educação
decidiu focar só na melhoria de unidades.
A primeira é o Ciep Theóphilo de
Souza Pinto, na Favela Nova Brasília, no
Complexo do Alemão. O imóvel ganhará
novas cores e 4 laboratórios de informática.
Mês que vem, começa a adaptação
para portadores de necessidades especiais, como
rampas e piscina adaptada. A ideia é fazer
o mesmo em 87 escolas a partir de 2010.
Cruz
Vermelha socorrerá baleados em favelas
A
Cruz Vermelha Internacional — veterana na
assistência a vítimas de guerra em
todo o mundo — vai atuar também em
favelas do Rio. O objetivo — como antecipou
a coluna ‘Informe do Dia’ —
é atender, principalmente, pessoas feridas
em tiroteios. As ações serão
nos complexos da Maré e Alemão,
Cantagalo, Cidade de Deus, Parada de Lucas, Vigário
Geral e Vila Vintém.
O
projeto deve ser colocado em prática até
o fim do mês. Agentes da Secretaria Municipal
de Saúde serão treinados por médicos,
enfermeiros e psicólogos da Cruz Vermelha
para saber como devem agir na linha de tiro. Alguns
profissionais da organização também
irão às comunidades.
Além
de cuidar dos baleados, o grupo vai oferecer atendimento
psicológico às vítimas, orientar
adolescentes sobre como prevenir uma gravidez
indesejada e trabalhar no combate à dengue.
Fonte:
extra.globo.com