União de voluntários faz a força para reforçar o ensino

Aula inaugural do programa de recuperação na Zona Oeste é marcada pelo exemplo de 622 pessoas que vão trabalhar de graça na região

POR CAROL MEDEIROS, RIO DE JANEIRO

Rio - Melhorar a qualidade do ensino público e mudar o futuro de milhares de crianças e adolescentes carentes, sem receber um tostão. Até o fim do ano, esse será o trabalho de 1.300 voluntários selecionados para o reforço escolar promovido pela Secretaria Municipal de Educação. A aula inaugural aconteceu ontem, em Santa Cruz, na Zona Oeste, onde quase 50% dos alunos precisam de reforço escolar, e 10,5% foram considerados analfabetos funcionais.


Sara, formada em Economia Doméstica, vai ensinar Matemática porque sabe que muitos pais não têm como pagar explicadoraMesmo sabendo que não ganhariam salário e teriam que cumprir horário, 2.850 pessoas se inscreveram, mostrando que o carioca tem a solidariedade no DNA. “Eu não podia ficar de braços cruzados em casa enquanto, pela primeira vez em décadas, há uma possibilidade real de dar a esses alunos o que lhes foi negado nos últimos anos: o direito de aprender e ter uma formação digna. Eu acredito na educação pública”, ensinou Goethe Madruga, 59 anos, que começou cedo no magistério. Aos 15 anos, era um dos melhores da turma e foi escolhido para dar aulas em escolas da região, onde a carência de professores era grande.

Aposentado pela rede municipal, ele comandou ontem a primeira turma de reforço em Português na Escola Municipal Francisco José Antônio, em Santa Cruz, e teve um aluno ilustre entre seus pupilos: o prefeito Eduardo Paes, que participou da aula inaugural ao lado da secretária Cláudia Costin. “Esse projeto aposta no futuro de vocês. É um esforço para prepará-los para a vida”, explicou Paes para os seus ‘coleguinhas’ de turma. Depois, ele visitou o colégio particular Monteiro Passos, em Realengo, cujos alunos lhe escreveram cartas pedindo melhorias para o bairro.

Goethe é um dos 622 voluntários que, a partir de hoje, darão duas horas da sua semana para ajudar os alunos da Zona Oeste a vencer suas dificuldades de aprendizado. A região concentra o maior número de crianças que precisam de reforço escolar: 49,7% terão aulas extras de Português, e 48,5%, de Matemática. Serão 3.377 turmas. Na semana que vem, o projeto chegará a toda a cidade.

Sentada perto de Paes, Tayane Mululo de Souza, 9 anos, estava empolgada. Aluna do 4º ano, ela tem dificuldades de leitura. “Quando escrevo com pressa ainda erro muitas palavras. Leio certo, mas devagar. Quando tem palavras grandes, gaguejo”, admite a menina, que não vai precisar de aulas de Matemática. “Sou boa com contas”, gaba-se.

Tayane é um exemplo do resultado da aprovação automática. O sistema, abolido no início do ano, levou a agente de saúde Elaine Rosa Macedo, 26, a se oferecer como voluntária. Ela terá que trabalhar mais horas por semana para conseguir um dia de folga, que dedicará a ensinar Matemática: “Minha irmã passou sua vida escolar com explicadora. No 4º ano, não sabia quanto era 2 + 2. Minha mãe precisou conversar com a diretora para pedir que não passassem ela de ano. Isso me revoltou. Agora posso fazer algo para mudar isso”.

Aula extra com mestre para 13 mil alunos

No total, quase 13 mil turmas terão reforço com professor, outras 10 mil o farão através de dever de casa e 610 escolas da rede optaram pelas aulas de reforço com voluntários. Eles recebem apenas uma ajuda de custo de R$ 100 para pagar passagem e alimentação. “O que me impulsionou foi a esperança. A educação da nossa cidade está acabada, as crianças, entregues à própria sorte. Quantas saíram da escola sem saber escrever o próprio nome? Agora, posso mudar esse cenário e retribuir à sociedade o que ela fez por mim”, disse Sara Santos Fernandes, 40.

Professora de Educação Doméstica formada pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Sara mora na comunidade Jardim Maravilha, em Guaratiba. “Lá, se uma criança precisa de explicadora, vai ter que pagar R$ 40 por mês. Com uma mãe dona de casa e um pai desempregado ou ganhando salário mínimo, eles não têm como pagar e o filho fica sem aprender”.

Recuperação de 28.879 analfabetos funcionais

Eduardo Paes e a secretária Claudia Costin também visitaram uma turma de realfabetização na Escola Municipal Francisco José Antônio. O programa começou no dia 11. Na Zona Oeste, 6.642 estudantes estão sendo realfabetizados.

“É um desafio. Trabalhava com duas turmas de 4º ano e havia alunos em três níveis: os que acompanhavam a série, os que conseguiam soletrar mas não entendiam o que estavam lendo e aqueles que não sabiam ler o próprio nome”, afirma a professora Maria Leonor Santiago, 46 anos. Ela é um dos 600 docentes capacitados pelo Instituto Ayrton Senna e está à frente de uma turma de realfabetização com 18 alunos, entre eles dois de 13 anos de idade e três do 5º ano. Em toda a rede, 28.879 alunos foram considerados analfabetos funcionais e 13 mil já começaram as aulas.

Ao contrário do reforço, as aulas de realfabetização só são ministradas por professores da rede. “O processo é mais complexo e envolve aulas, que é competência do professor devidamente treinado”, explicou Costin. Eles receberam R$ 320 para participar do programa de treinamento, que durou cinco dias. Quem tem dupla regência ou duas matrículas no município não ganhará nada a mais. Os que só têm uma matrícula receberão valor correspondente à dupla regência.

 

Fonte: www.odia.com.br

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