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anos depois Collor continua forte com apoio de ex-algozes
Ex-presidente sempre teve uma postura ambígua:
nasceu na direita, mas sempre flertou com a esquerda, dizem
políticos e amigos
Por:
Ricardo Galhardo, enviado a Maceió
Em
um café da manhã realizado na última
quinta-feira, em Maceió, o PTB do senador Fernando
Collor confirmou o apoio à candidatura do ex-governador
Ronaldo Lessa (PDT) à prefeitura da cidade. Se tudo
correr conforme o esperado, Collor e Lessa dividirão
o palanque com o PT, PC do B e PMDB na eleição
de outubro.
Vinte
anos atrás, quando a revista “Veja” estampou
na capa o depoimento bomba de Pedro Collor, irmão
do ex-presidente, essa imagem era inimaginável. O
PDT, então liderado por Leonel Brizola, se manteve
fiel a Fernando Collor até o momento em que a derrota
era inevitável mas PT, PC do B e PMDB – aliados
ao PSDB – foram os principais algozes de Collor no
processo iniciado com as revelações de Pedro,
no dia 27 de maio de 1992, e terminado com o impeachment
do então presidente da República, em dezembro
daquele ano.
Lessa,
que hoje recebe apoio incondicional do senador, esteve na
vanguarda da oposição a Collor em nível
estadual. A virulência das agressões extrapolou
a disputa política e chegou ao ponto de, por meio
de prepostos, ambos se acusarem de envolvimento em crimes
comuns.
“Eu
e Lessa eleitos graças ao impeachment de Collor”,
recordou a vereadora Heloisa Helena (PSOL), vice de Lessa
na eleição municipal de 1996.
Em
entrevista por telefone ao iG, o ex-governador comentou
com naturalidade a aliança. “Convidei todos
os partidos que estiveram comigo no segundo turno da campanha
para governador (em 2010, quando ele e Collor foram candidatos
na eleição vencida pelo tucano Teotônio
Vilela Filho)”, disse Lessa.
No
almoço de quinta-feira passada, o PTB foi representado
pelo dirigente estadual Fernando James Collor, 32 anos,
filho do senador. Segundo ele, as relações
entre os dois ex-rivais vão de vento em popa. “Meu
pai e Ronaldo não se conheciam de verdade. Isso só
aconteceu no segundo turno da campanha de 2010 (quando Collor
apoiou Lessa). Ele costuma dizer que o que meu pai fez por
ele naquele segundo turno não fez nem por si próprio
no primeiro”, disse James.
De
acordo com o filho do senador, a aproximação
de Collor com seus antigos algozes é fruto do amadurecimento
político. “Somos seres humanos em evolução.
Nossos problemas mudam. Tudo muda”, disse.
James,
que tinha apenas 12 anos na época do impeachment,
verbaliza uma interpretação que é compartilhada
por muitos hoje em Alagoas. “Muitas pessoas falam
que fizeram de uma gota d’água um tsunami”,
afirmou. “Não devemos nem mais falar disso.
Devemos olhar para o futuro”.
Para
o governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho (PSDB),
adversário de Collor nas eleições de
2010, o atual cenário político do Estado não
chega a surpreender. “Não me surpreende nem
pelo PT nem pelo Collor. A política é muito
dinâmica e talvez o que o PT defendia e criticava
antes seja o que hoje Collor defende e critica, ou vice-versa”,
disse o governador. “É um sinal de que o impeachment
e tudo o que cercou essa história ficou lá
atrás”, completou.
De
acordo com políticos e amigos que acompanharam o
surgimento político de Collor, o ex-presidente sempre
teve uma postura ambígua, pois embora tenha nascido
na direita flertou permanentemente com a esquerda.
Collor
foi nomeado prefeito de Maceió em 1979 pela extinta
Arena e eleito deputado em 1982 pelo PDS. Em 1984 votou
a favor das “Diretas Já” e, depois, apoiou
Paulo Maluf (PDS) contra Tancredo Neves (PMDB) no Colégio
Eleitoral.
Em
1986, quando se candidatou ao governo de Alagoas, trocou
o PDS pelo PMDB e adotou um discurso radical de esquerda
no qual afrontava a elite dos usineiros de açúcar
e pregava a moralização do Estado. “Ele
tinha um discurso mais à esquerda do que os partidos
de esquerda. Falava claramente reforma agrária e
até em confisco de terras dos usineiros”, lembrou
o presidente do PSOL de Alagoas, Mario Agra, que estudou
com Collor na faculdade e na época estava no PC do
B. “Era um discurso tão empolgante que ele
conseguiu rachar o PC do B alagoano, levando consigo um
pedaço do partido”, completou.
Segundo
pessoas que acompanharam de perto a gênese de Collor,
a migração partidária e ideológica
foi puro cálculo político. Em 1986, o campo
da direita estava tomado pelo ex-governador Guilherme Palmeira
e restava ao jovem deputado disputar o espaço no
PMDB que à época abrigava correntes de extrema
esquerda sobreviventes da luta contra a ditadura.
Com
apoio dos grupos de mídia da família e aproveitando
a onda positiva que deu ao PMDB a maioria dos governadores
naquelas eleições, Collor foi eleito. De acordo
com testemunhas daquele período, o projeto presidencial
nasceu antes mesmo de ele tomar posse. Na semana seguinte
à eleição, Collor fez um giro pelo
Rio de Janeiro e São Paulo com o objetivo de tentar
contatos com os principais líderes da esquerda nacional,
entre eles Mário Covas (PSDB), Luiz Inácio
Lula da Silva (PT), Roberto Freire (PPS, então PCB),
Ulysses Guimarães (PMDB) e Leonel Brizola (PDT),
que três anos depois seriam seus adversários
na campanha presidencial. Nem todos o receberam. Ao tomar
posse, ele chegou a oferecer as secretarias de Saúde
e Meio Ambiente do Estado ao PC do B, que recusou.
Instalado
no poder, Collor, com ajuda do então desconhecido
Paulo César Farias, se reaproximou dos usineiros,
a quem concedeu benefícios fiscais que deixaram sequelas
por mais de uma década nas finanças alagoanas
e promoveu uma série de demissões em cargos
de confiança que lhe valeu o título de “caçador
de marajás”, com o qual foi apresentado ao
restante do País e que lhe serviu de passaporte para
a candidatura à Presidência, em 1989.
Segundo
o atual governador, feitas as contas o saldo final foi negativo
para Alagoas.
“A
história que cercou o mandato de Collor na Presidência
da República foi mais prejudicial ao Estado do que
qualquer outra ação que ele, como presidente
do País, tenha feito em favor de Alagoas”,
disse Teotônio Viela Filho, para quem hoje Collor
continua forte. “Collor é senador da base do
governo federal, presidente de uma das comissões
mais importantes do Congresso Nacional, e tem livre trânsito
nos ministérios do PT e partidos aliados. Sim, é
claro que ele está fortalecido”.
O
senador Fernando Collor foi procurado diversas vezes pela
reportagem do iG mas se recusou a dar entrevista.
Fonte:
www.ig.com.br (Matéria)
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