RESSURGÊNCIA PURI, DA GRAU DE MESTRE NA UFV 03/02/17

Da esquerda para direta - Marcelo Lemos, Pedro, Cris, Dauá Puri, Willer Barbosa, Melissa, Marilda Douglas e Reinaldo.
 

A Universidade de Federal de Viçosa de Minas Gerais em seu Campus na (UFV), 03/02/17, aprovou com o Grau de Titulo Magister Scientiae, MELISSA FERREIRA RAMOS, com a Dissertação: RE-EXISTÊNCIA E RESSURGÊNCIA INDÍGENA: DIÁSPORA E TRANSFORMAÇÕES. A banca foi composta pelos professores , Willer Araujo Barbosa (UFV), Douglas Mansur da Silva (UFV), Marilda Telles Maracci (UFV) e Marcella Beraldo de Oliveira (UFJF).

A Tese defendida por Melissa apresentou aspectos da Diáspora Multiétnica do Brasil, com suas desigualdades sociais, “onde o tratamento aos povos originários e seus descendentes são injustos devido à dificuldade da reafirmação da sua identidade. Segundo Melissa, “Os povos indígenas foram massacrados física e culturalmente, subjugados e obrigados a submeterem-se às ordens da Coroa portuguesa, do Império e da Republica brasileira. A partir de processos coloniais, a população indígena no Brasil foi reduzida de aproximadamente 5 a 8 milhões no século XVI, para menos de duzentos mil no inicio dos anos 1980. Os nativos que não foram mortos, ou conseguiram fugir para terras ainda não desbravadas, pela colonização, ou eram “incorporados” geralmente a força à sociedade que se construía aos padrões europeus, ou adaptados aos trópicos no chamado “novo mundo”, com sua cultura ancestral sendo geralmente desestimulada e criminalizada”.

Oca Guarani
Oca Guarani

No Portal Brasil do Governo Federal, aponta para uma população indigna do Brasil, de aproximadamente 896, 9 mil povos indígenas. “ 36,2% dos indígenas vivem em área urbana e 63,8% na área rural. O total inclui os 817,9 mil indígenas declarados no quesito cor ou raça do Censo 2010 (e que servem de base de comparações com os Censos de 1991 e 2000) e também as 78,9 mil pessoas que residiam em terras indígenas e se declararam de outra cor ou raça (principalmente pardos, 67,5%), mas se consideravam “indígenas” de acordo com aspectos como tradições, costumes, cultura e antepassados”.

 
Tapuia

Com relação aos valores morais, Melissa aponta que a Coroa portuguesa não se satisfazia só com o genocídio, mas também com o etnocídio. “No século VXIII tinha como objetivo incutir valores morais e religiosos para obtenção de novas áreas. Mesmo com todas as tentativas de extinguir os povos e culturas indígenas. “Existem no Brasil mais de 300 etnias que falam 27 línguas em todo território brasileiro”. Outro ponto controvertido foi com relação ao Aldeamento. Segundo Melissa: “Os índios dominados eram colocados em Aldeamento para facilitar o controle dos opressores.”

A difusão do preconceito também inclui a academia, escolas e repartição pública. Segundo Melissa: “Aprende-se na escola de modo preconceituoso, equivocado e eurocêntrico que índio é aquele que possui cultura atrasada, tratando a cultura de forma congelada, como se para índio, ser autêntico devesse ser como no passado, viver em aldeias na mata, falar língua própria, caçar sua própria comida, andar nus ou seminus e usar trajes e apetrechos típicos”. Ser índio vai muito além deste estereótipos. E continua: “Não podemos generalizá-los e tratar a cultura de maneira estática. Esse modo de vida tradicional foi atacado historicamente de diversas maneiras e o próprio contato com outras realidades fez o indígena passar por alterações culturais, da mesma forma que exerceu influência sobre a civilização dominante”.

Melissa menciona que, apesar das peculiaridades de cada cultura indígena em comum a todos que se consideram indígenas, “Existem pessoas que foram obrigadas a deixar de utilizar ou esconder suas práticas consideradas “indígenas”, mas de modo criativo e dinâmico souberam cultivar os conhecimentos de modo a transmitir para os filhos”. Devido a isto comenta: “Existem aquelas pessoas que por uma série de fatores não têm consciência da sua identidade indígena; há ainda aqueles mesmo reconhecendo que são e de onde se originam, fazem uma opção por não se identificar enquanto indígenas, preferindo se confundir com a massa da sociedade ou com outra identidade que consideram mais forte ou de mais fácil aceitação social”.

Embora o preconceito aos povos tradicionais persista nos dias atuais, sobre tudo pelas mídias e redes sociais, Melissa acredita que com o processo de organização indígena a partir da década de 1970, passou-se a valorizar mais a questão dos povos originários: “Cresce o número de pessoas que se reconhecem enquanto indígenas, fazendo manter viva suas tradições. Se afirmam quanto indígenas, sem deixar de ser modernas e adaptativas. Seja em terras indígenas ou fora delas, no meio urbano ou rural, com diversas ocupações, se apropriam dos meios de comunicação e se articulam em rede”.

Dauá Puri e Cris
Kapua e Tuschai

Quanto ao território e localização do povo Puri, Melissa em suas pesquisas aponta a região do Vale do Paraíba, que compreende os estados do Rio de Janeiro, Leste de Minas Gerais, Noroeste de São Paulo e Sul do Espírito Santo. Com relação à extinção do povo Puri, Melissa faz uma crítica ao sistema dominante: seria com o fim de se apropriar das terras? “Perguntamo-nos porque eles foram considerados extintos se existem em números expressivos”. Com fundamentando em Oliveira (2014), Melissa busca fundamentar uma resposta cientifica: “Confirma esse fato ao indicar a utilização do paradigma da extinção para legitimar a continuidade do processo de cooptação do Puris. Essa falácia foi feita através da referencia da etnia Puri, nos registros oficiais, os já tratados como acablocados e tendo perdido seus traços culturais”. Melissa, em determinado momento do texto, indaga-se a respeito das pessoas que se auto-declaram “antropologicamente a etnogênese ou renascer de um povo como tal? “Dentre essa “purizada”, existe uma multiplicidade de interesses e perfis individuais, em que alguns se satisfazem passando sua cultura para seus filhos; enquanto outros querem conhecer mais sua história, ou contribuir no processo de conscientização de outros Puris, e há aqueles que sonham com o reencontro do seu povo e a retomada da suas terras coletivas”.

Etnogênese?

A tradição legalista e o forte senso comum sobre o que deve ser um índio (naturalidade e imemorialidade) têm funcionado como sérios obstáculos à implementação de avanços teóricos e jurídicos no reconhecimento de povos indígenas resistentes. As “emergências”, “ressurgimentos”, ou “viagens da volta” são designações alternativas, cada uma com suas vantagens e desvantagens, para o que, de forma mais clássica e estabelecida, a antropologia designa por  etnogêneses . Esse é o termo, ainda assim conceitualmente controvertido, usado para descrever a constituição de novos grupos étnicos.

Com relação às pesquisas de Campo, Melissa buscou na fonte do historiador Marcelo Lemos (2004; 2016), em seu livro: O índio que Virou Pó de Café, contribuição para sua dissertação. “Os índios não só os do vale do Paraíba em geral, forçosamente foram retirados de seu habitats, passaram por um processo de destribalização, até serem induzidos e incorporados a sociedade que se criava, não mais como índios, mas como “cablocos” considerados “civilizados”, trabalhadores confundidos com a massa da população. Esse “desaparecimento” teve o objetivo de mascarar a realidade para usurpar e se apoderar da terras indígenas”.

Melissa
Seu Neném e Lupin

Inquieta, Melissa afirma: “Nossa proposta é interpretar o Povo Puri através de uma releitura, entendendo o que a etnia Puri significa hoje para as pessoas que a reivindicam. “Se algumas pessoas hoje se afirmam enquanto Puris, e se esforçam em construir uma forma organizada dessa etnia, nos propomos a pesquisar aonde esse dinamismo chegou e como está se dando o processo de auto-organização”. Com relação à participação social com outros movimentos sociais, Melissa salienta a importância da “Troca de Saberes” que são realizados na UFV, o que possibilita intercâmbio cultural: “Os remanescentes Purís através da Oca dos Povos Tradicionais na UFV, vêm crescendo ano após ano e conta com a participação dos Puris desde a edição de 2013”.

Tapuia e Kapua

Em sua Análise de Conclusão, Melissa diz que não tem pretensão de encontrar conclusões definitivas. “Ressaltamos que cada autor e cada Puri pesquisado têm a sua própria interpretação” e o estudo deve ser pesquisado “sobre a história da etnia Puri”. Para Melissa os povos de Tradição Puris continuam marginalizados e relegados à própria sorte quando conclui com otimismo: “Mas a “purizada” vem se reagrupando, se re-tribalizando, fortalecendo assim a articulação, comunicação, laços ancestrais, afirmação étnica, resistência cultural, unificação de pautas e ações. Rupturas com velhas estruturas são potencializadas, abrindo possibilidade de caminhar na construção da contra-hegemonia necessária para superar a neocolonialidade rumo ao bem viver proposto e tencionado pelos povos amerindiafricanos e companheiros de todo o mundo”.

 
Dauá Puri, Sol e Aline

Por último, Melissa colocou os desafios que ainda faltam para consolidar a emancipação Puri, dentre eles: “Consolidar o processo de ressurgência e resiliência, fortalecendo a coletividade Puri re-criada; A conquista da terra e direitos sociais; Aprofundar pesquisas, estudos e troca de saberes”.

Finalizou agradecendo ao Professor-Orientador Willer Araujo Barbosa (UFV), bem como à Banca composta pelo Corpo Docente: Douglas Mansur da Silva (UFV), Marilda Telles Maracci (UFV) e Marcella Beraldo de Oliveira (UFJF), com o grito de guerra, “Kshê ximã dié Puky. (Luz no seu caminho Puri)!

Dauá Puri, Kapua e Tapuia
Tuschai e Reinaldo Cunha

Vídeos:
- Ressurgência Puri da Grau de Mestre na UFV - 03/02/2017

- Ressurgência Puri 04 02 2017

Matérias:
- O RIO É CARIOCA E CONTINUA ÍNDIO 450 ANOS DE FUNDAÇÃO
- OS INDIOS EM CONTEXTO URBANO NO RIO - Aldeia Maracanã e a Resistência Indígena

Texto: Reinaldo de Jesus Cunha
Jornalista: 0036785/RJ

 

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